sexta-feira, 25 de novembro de 2016

SÍNDROME DOS OVÁRIOS POLICISTICOS: ASPECTOS ATUAIS DAS ABORDAGENS TERAPEUTICAS

SÍNDROME DOS OVÁRIOS POLICISTICOS: ASPECTOS ATUAIS DAS ABORDAGENS TERAPEUTICAS


     A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é uma das mais comuns endocrinopatias que acometem mulheres em idade reprodutiva, com prevalência de 4 a 12% em diferentes populações. Mudança nos hábitos de vida são estratégias iniciais no tratamento de mulheres obesas com SOP, melhorando sensibilidade à insulina, hiperandrogenismo, fatores de riscos metabólicos, ciclos menstruais e ovulação, e reduzindo tanto o número de folículos ovarianos retidos como o volume ovariano, regulando a fertilidade e a capacidade reprodutiva. Uma dieta pobre em gorduras saturadas e rica em fibras, com alimentos de baixo índice glicêmico de carboidratos, é geralmente adequada para mulheres com SOP. Os agentes sensibilizadores da insulina também fazem parte do manejo dessas pacientes. Avaliação do uso de metformina e citrato de clomifeno mostrou que as taxas de ovulação foram efetivas tanto com o uso isolado da metformina quanto em associação ao citrato de clomifeno, porém, quanto ao número de gestações, foi obtido melhor resultado com a associação de ambos os medicamentos. As glitazonas também têm sido utilizadas nas desordens metabólicas na SOP. A administração de rosiglitazona 4 mg/dia ou de pioglitazona 30 mg/dia a mulheres obesas e não obesas com SOP levou a uma melhoria da resistência a insulina, diminuição da produção androgênica ovariana, restauração da ovulação espontânea.
     A síndrome possui como características: anovulação crônica, excesso de androgênios evidenciado na clínica ou laboratorialmente, e ultrassonografia indicativa de policistos nos ovários. Algumas evidências mostram que a SOP é uma desordem crônica cujos sinais costumam aparecer antes da puberdade e, algumas vezes, como uma adrenarca precoce. Os sintomas e sinais da SOP podem estar presentes em qualquer idade da vida reprodutiva, e as manifestações diferem de mulher para mulher. Devido a essa heterogeneidade de características, o diagnóstico é frequentemente demorado. Muitas mulheres portadoras da SOP não procuram assistência médica até tentarem engravidar, pois essa seria a primeira vez que elas não estariam fazendo uso de contraceptivos hormonais, que provavelmente haviam mascarado os sintomas até então. O diagnóstico em adolescentes é frequente e tem aumentado devido ao crescente número de adolescentes obesas. Por isso, é importante a intervenção precoce, principalmente para reduzir as complicações associadas.
     A patogenia é complexa, multigênica, caracterizada por disfunções na liberação de gonadotropinas e na síntese de esteroides (B). A hiperinsulinemia também representa um papel importante na patogenia da SOP. A insulina em excesso aumenta a secreção de LH pela hipófise, contribuindo para a anovulação, e diminui os níveis de SHBG (sex hormone-binding globulin), aumentando a testosterona livre.
   Mudanças nos hábitos de vida Perda de peso e exercícios físicos são estratégias iniciais no tratamento de mulheres obesas com SOP, melhorando a sensibilidade à insulina, hiperandrogenismo, fatores de riscos metabólicos, ciclos menstruais e ovulação (B) reduzem o número de folículos ovarianos retidos e o volume ovariano e melhora a fertilidade e a capacidade reprodutiva (B). A redução de 2 a 7% do peso corporal reduz os níveis de androgênios e ocorre melhora na função ovariana6 (B) e adoção de uma dieta redutora de peso, com baixo teor de gordura, associada à atividade física regular implicam benefícios psicológicos em mulheres com SOP.
      Foi demonstrado que a dieta pobre em carboidrato resultou em grande diminuição da insulina de jejum e resposta aguda de insulina para glicose em comparação às outras dietas.
       Bruner et al.11 (B) avaliaram os efeitos de exercícios físicos de resistência com aconselhamento nutricional e da orientação nutricional isolada em 12 mulheres com SOP por um período de 12 semanas.  Os achados sugerem que exercícios e medidas nutricionais devem melhorar as funções metabólicas e reprodutivas das mulheres com SOP (B). O tratamento com dieta e mudança de hábito de vida deve ser sempre encorajado em todas as pacientes com SOP, pois melhora praticamente todos os seus parâmetros. A manutenção do peso é essencial para reduzir o aparecimento de complicações posteriores.
        Entretanto, para aquelas que não alcançarem o objetivo esperado apenas com mudança no estilo de vida, deve-se associar à farmacoterapia.
        Metformina A metformina é um agente sensibilizador da insulina que reduz a resistência e a secreção de insulina, seguida por uma diminuição na produção de androgênios ovarianos. A ação direta da metformina sobre as células da teca ovariana também diminui a produção androgênica. É administrada via oral na dose de 1500 a 2500 mg/dia. A atuação da metformina se torna limitada em mulheres com IMC acima de 40 kg/m2  (B).
         Seus efeitos colaterais incluem: náuseas, vômitos, diarreia, acidose lática, sendo contraindicada em mulheres com creatinina maior ou igual a 1,4 mg/dL, disfunção hepática e alcoolismo (D).
         A utilização de metformina com citrato de clomifeno não aumenta o sucesso terapêutico quando comparada ao citrato de clomifeno isolado (A).
        Kashyap et al.  (B) analisaram o uso de metformina versus placebo e de metformina associada ao citrato de clomifeno versus placebo com citrato de clomifeno. A metformina foi 50% melhor que o placebo para indução de ovulação em pacientes inférteis com SOP. A metformina mostrou benefício também na regularização dos ciclos menstruais em mulheres férteis comparada ao placebo. Metformina associada ao citrato de clomifeno é possivelmente de 3 a 4 vezes superior ao citrato de clomifeno isolado para induzir a ovulação e para a gravidez (B).
          Metformina e modificação no estilo de vida melhoram o perfil metabólico em mulheres com SOP em maior grau do que quando administrada isoladamente.
          Pasquali et al. (B)relataram que seis meses de tratamento com metformina combinada a uma dieta hipocalórica resultou em uma redução significante no peso corporal e na gordura visceral em comparação à dieta hipocalórica combinada com placebo.
             Mulheres não obesas, mas com SOP, não se beneficiaram do tratamento com metformina (A).
         Palomba et al.23 (B) avaliaram o efeito da metformina em 30 mulheres com SOP e IMC normal. Foram divididas em três grupos: as que usaram metformina, um Grupo Placebo e um Grupo Controle (mulheres saudáveis que não receberam tratamento). O objetivo do estudo foi medir a sensibilidade à insulina após a suspensão de metformina de mulheres tratadas por um longo período de tempo. O estudo revelou que mulheres de peso normal, anovulatórias e com SOP não mantêm os benefícios bioquímicos e clínicos após a retirada de metformina, pelo contrário, apresentam uma leve, mas significativa, piora da sensibilidade basal periférica de insulina, medida antes do início do tratamento com metformina, em comparação aos grupos placebo e controle (B).
            Com a associação do citrato de clomifeno à metformina, uma taxa adicional de 20% delas conseguiram engravidar nos seis meses seguintes. A taxa de fertilidade geral em um ano foi de 71%. Também ocorreu uma significante mudança do IMC antes e depois do tratamento (B). 
           Glitazonas Há outra classe de agentes hipoglicemiantes orais mais recentes, derivados das tiazolinedionas (TZDs), que também são usados no tratamento das desordens metabólicas na SOP: troglitazona, roziglitazona e pioglitazona. Os efeitos das TZDs sobre a função ovariana podem ser indiretos (devido à ação sistêmica sensibilizadora da insulina e redução da hiperinsulinemia), como a diminuição dos níveis séricos de testosterona total e livre e aumento dos níveis de SHBG (globulina ligadora dos esteroides sexuais) e de IGFBP-1 (insulin-like growth factor binding protein 1). No entanto, também têm sido descritos efeitos diretos, que podem ser independentes da insulina (aumento dos níveis de progesterona e de IGFBP-1 e diminuição dos níveis séricos de testosterona total e de estradiol), ou decorrentes do aumento local do efeito da insulina (diminuição da produção de IGFBP-1 e aumento da produção de estradiol, na presença de altas concentrações de insulina25 (B).
        As tiazolinedionas estão associadas a um pequeno ganho ponderal (1 a 2 kg), redução moderada do hematócrito, ligeiro aumento do volume plasmático e edema26 (D). As contraindicações são para pacientes com doença hepática ou insuficiência cardíaca congestiva (classes III ou IV). Tanto a rosiglitazona como a pioglitazona são classificadas como fármacos de categoria C. Portanto, as mulheres tratadas com esses medicamentos devem receber aconselhamento contraceptivo e ser instruídas a interromper o tratamento tão logo a gestação for confirmada (D).
       No entanto, quando comparado à metformina, o efeito da roziglitazona na melhoria das taxas ovulatórias foi menor, ao passo que o efeito das duas drogas no hiperandrogenismo foi similar29 (B).Resultados semelhantes foram encontrados quando comparados os efeitos da pioglitazona aos da metformina em um grupo de mulheres obesas com SOP, sendo que ambas as drogas diminuíram a resistência à insulina e o hiperandrogenismo com a mesma eficácia (C).
        Considerações finais No manejo das mulheres com SOP, devemos estimular inicialmente as mudanças nos hábitos de vida, que incluem perda de peso e exercícios físicos. Muitas vezes, encontramos dificuldades para fazer com que as mulheres compreendam e ponham em prática as orientações. Os agentes sensibilizadores da insulina são uma boa opção, sendo que a experiência mundial é maior com a metformina.
REVISÃO SISTEMATIZADA
FEMINA | Maio 2009 | vol 37 | nº 5
            
          
                     

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